Baterias gigantes para o Brasil evitarem apagões
As baterias gigantes estão no centro da estratégia brasileira para evitar apagões causados pela sobrecarga na rede elétrica, provocada pelo rápido crescimento da geração solar e eólica. O governo federal planeja realizar um leilão ainda no primeiro semestre de 2026, com o objetivo de contratar sistemas de armazenamento capazes de guardar eletricidade excedente e disponibilizá-la nos momentos de maior consumo, especialmente à noite, quando a geração renovável diminui.
A proposta deve movimentar mais de R$ 10 bilhões e envolve grandes players globais, como Tesla, BYD, Huawei e CATL, a maior fabricante mundial de baterias.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, define o projeto como um “piloto” para avaliar a integração da tecnologia à matriz brasileira. A expectativa é contratar aproximadamente 2 gigawatts, o que equivale ao consumo médio de cerca de 2 milhões de residências. Markus Vlasits, presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia, ressalta que o leilão será altamente competitivo, dada a presença de diversas empresas preparadas para o mercado.
Sistemas de baterias como solução estratégica
Esses sistemas funcionam como grandes power banks: armazenam energia quando a oferta solar e eólica está alta, evitando o desperdício quando a rede não suporta toda a geração. No Brasil, atualmente, o excesso de geração acaba sendo cortado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) em um processo chamado curtailment. Esse método não só gera perdas substanciais de energia limpa, como desestimula investimentos e provoca disputas judiciais por ressarcimento de prejuízos decorrentes desses cortes.
No modelo planejado, o empreendedor será responsável pela instalação de baterias conforme a regulação, enquanto o ONS controlará o acionamento conforme a necessidade operacional. Ana Karina de Souza, advogada especializada em energia, explica que embora não seja a solução mais sofisticada, o leilão serve como passo inicial para estruturar modelos futuros mais avançados e garantir maior segurança para investidores.
Contexto global e avanços tecnológicos
Em termos globais, a implantação de grandes sistemas de armazenamento em baterias (BESS) cresce exponencialmente. Em 2025, mais de 100 GW foram adicionados às redes elétricas mundiais, quase triplicando a capacidade instalada em relação a 2023. Países como Austrália demonstram como as baterias já superam a geração a gás durante a noite, reduzindo significativamente o uso de combustíveis fósseis e promovendo uma matriz mais limpa e resiliente.
Sistemas BESS são fundamentais para flexibilizar a rede, integrar renováveis e reduzir emissões. O preço das baterias caiu mais de 80% na última década, tornando-se uma alternativa competitiva frente às usinas térmicas a gás, cujo custo médio por megawatt/hora é superior.
Desafios e incentivos para produção nacional
Segundo Markus Vlasits, o custo estimado para a energia armazenada nas baterias gira entre R$ 1 milhão e R$ 1,1 milhão por MW/h, contra cerca de R$ 1,6 milhão das termelétricas. Por outro lado, fatores como tributação ainda precisam ser esclarecidos para viabilizar plenamente o desenvolvimento nacional, como destaca Thiago Soares, diretor executivo da UCB Power, empresa brasileira do setor.
Espera-se que sistemas de armazenamento sejam enquadrados em regimes especiais que suspendam impostos como PIS e Cofins, favorecendo a produção nacional, que conta com empresas como Moura, WEG e UCB, com expertise importante para o mercado.
Impactos e perspectivas para o setor elétrico brasileiro
A implantação dessas baterias gigantes é uma resposta estratégica para evitar apagões e suportar a expansão das fontes renováveis, essencial à segurança energética e à transição no Brasil.
O leilão piloto será um marco nessa trajetória, abrindo caminho para projetos maiores e mais integrados. Armazenamento em baterias promete transformar o cenário energético nacional, reduzindo desperdícios e aumentando a confiabilidade da rede.
Além de fortalecer a segurança do sistema, a iniciativa abre oportunidades para investidores e a indústria local, inserindo o Brasil no esforço global por uma matriz mais estável e sustentável.
